A fotografia de uma tragédia: Voepass

A fotografia de uma tragédia: Voepass

Por Osvaldo Furiatto

Era uma sexta-feira até então tranquila. A única mudança prevista na rotina seria o fato da minha esposa, Karina, estar de folga do trabalho no período após o almoço. Esse fato também havia me motivado a tirar aquela tarde de folga, algo não muito comum na vida de um micro empreendedor que trabalha sozinho.

Passava um pouco do meio dia, quando Karina chegou na nossa casa. Vinha do escritório da empresa na qual trabalha. Nosso primeiro diálogo foi sobre o que comeríamos no almoço. Decidimos que o cardápio seria algo leve e rápido, afinal, nossos planos eram aproveitar aquela rara folga em dia útil. E assim fizemos. Preparamos um lanche em casa mesmo.

Era 13;40, estávamos decidindo o que faríamos, meu celular toca. Na tela, a informação de quem estava chamando era um amigo nosso, o Wender, que na época trabalhava na mesma empresa da Karina. A primeira ideia que me veio à cabeça foi que a Karina havia esquecido algo na empresa. Não sei por que pensei isso, mas até então, não havia outro motivo para ele me ligar naquele horário. Atendi.

O motivo da ligação era algo que havia acontecido aproximadamente há 18 minutos, mas que ainda quase ninguém sabia. “Oi Osvaldo, aqui é o Wender, ta sabendo de alguma notícia de um avião da Gol que caiu em Vinhedo?” (Sim, a primeira informação que estava circulando entre as pessoas é que teria sido uma aeronave da Gol). Wender me ligou porque também sou fotógrafo de aviação, e ele sabia disso. Também sabia que eu faço parte de alguns grupos de aviação, e a probabilidade de eu ter essa informação era grande.

“Não Wender, não estou sabendo de nada, o avião é da Gol?”, respondi. “Parece que sim, foi bem perto de onde meu pai está, ele disse que acabou de cair um avião da Gol lá”, disse ele. Imediatamente entrei nos grupos de aviação, nada ainda de informação. Mas, nem perguntei nada em nenhum grupo, a primeira reação foi dizer a ele: “Consegue me enviar a localização de onde seu pai está? Tô indo pra lá agora”. Peguei minha mochila com o equipamento (sempre deixo uma pronta, com câmera, cartões e bateria carregada).

Desliguei o telefone e falei para a Karina: “Caiu um avião em Vinhedo, estou indo pra lá”. A resposta dela foi: “Posso ir com você?”. Iimediatamente respondi: “É um acidente, se estiver OK pra você estar lá, vamos”. Em menos de cinco minutos estávamos dentro do carro. Embora ainda sem ter recebido a localização exata, eu já sabia que o destino era Vinhedo e, independente de onde fora, eu estaria entre 15 e 30 minutos do local (moro em Campinas).

Quando entrei na rodovia, recebi a localização. O GPS informava que o destino estava a aproximadamente 15 minutos. Nesse momento, começou a aparecer as mensagens nos grupos falando sobre um acidente com uma aeronave da Voepass. Em seguida, a confirmação, um ATR-72 500 da empresa Voepass havia caído em Vinhedo. Eu já estava na metade do caminho.

O acesso ao local do acidente, o Condomínio Recanto Florido, é através de uma rua de mão simples. Já no começo, uma viatura da polícia estava desviando o trânsito, impedindo a continuidade na via. Parei, me identifiquei como fotojornalista mostrando minhas credenciais (sim, eu jornalista também). Recebi como resposta a seguinte frase do policial: “Vou liberar o senhor até a próxima barreira, lá o senhor conversa com o oficial de lá e vê o que ele diz”.

E assim segui pelo caminho. Já era possível sentir a tensão no ar, embora não estivéssemos tão próximo assim. Algumas dezenas de metros mais à frente, a segunda barreira. Novamente parei e me identifiquei. A resposta foi bem semelhante: “Vou liberar o senhor até a entrada do condomínio e lá o senhor conversa com o oficial que está lá.”.

Então, mais uma vez, seguimos. A segunda barreira já era bem mais próxima da entrada do local do acidente. Então já pudemos ver a grande movimentação que se iniciava no lugar. Parei o carro, segui até os policiais que estavam próximos à portaria, me identifiquei. Fui o terceiro da impressa a chegar lá. Ouvi dos oficiais da polícia o seguinte: “Daqui só passam as pessoas que vão trabalhar diretamente no resgate, mas o senhor pode ficar junto com os jornalistas ali”, e me apontou as duas primeiras equipes que chegaram, uma de rádio e uma de TV. Eles estavam posicionados imediatamente ao lado do portão de entrada no condomínio.

Estávamos muito próximos do local da queda, mas não era possível ver nada, a não ser muita fumaça. Essa falta de visão do local era devido às arvores que formavam uma grande barreira visual, além de um muro alto. A partir daqui, conto o restante da história com as fotos que escolhi na época para ilustrar o que aconteceu durante o tempo que estive lá. Publico esse texto às 14:20 do dia 9 de agosto de 2025, exatamente no mesmo horário do meu primeiro clique no local do acidente acorrido um ano antes.